segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Posso fazer qualquer coisa

. segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Ao iniciarem Tomaz e Jorge seus estudos universitários, fizeram-no com o objetivo de alcançar não só um título, mas também o preparo necessário para se destacarem na vida como profissionais. Os anos passados nas aulas da Faculdade de Direito foram de árduo estudo, e às vezes se lhes afiguraram intermináveis, mas chegaram ao fim como todas as coisas desta vida.

Ao receber o diploma, verificaram que as condições econômicas, em geral, haviam-se modificado muito desde o momento em que iniciaram sua carreira, aguda crise abalava o mundo, e não lhes foi possível instalar-se como advogados. Que fazer nessas circunstâncias? Ambos eram jovens resolutos, pelo que não se intimidaram. Resolveram procurar emprego, embora não fosse no desempenho de sua profissão.

No porto em que viviam, estava instalado um grande estaleiro. Em suas oficinas e escritórios trabalhavam vários milhares de empregados, pelo que decidiram solicitar trabalho ao gerente dessa poderosa instituição.

Tomaz foi o primeiro a apresentar-se com seu flamante título em baixo do braço.

- Em que pode ocupar-se? Perguntou-lhe cortesmente o diretor da empresa, depois de lançar um olhar ao diploma do solicitante.

- Como o senhor compreenderá, não posso submeter-me a ser simples empregado. De acordo com meus conhecimentos, solicito um cargo de certa responsabilidade, com remuneração equivalente.

- Muito bem, jovem. Deixe-me seu endereço e, quando se apresentar à oportunidade em que haja uma vaga para um cargo de “responsabilidade”, pensaremos no senhor, respondeu-lhe o gerente, com certa ironia.

Claro está que essa oportunidade nunca chegou.

Jorge apresentou-se algumas horas, no mesmo escritório. Não levava consigo o título de advogado. Tinha apenas a determinação de começar a trabalhar de qualquer maneira honesta e de fazer-se conhecer em seu trabalho.

- Que é capaz de fazer, jovem? Interrogou-o gerente que se advertira da capacidade intelectual de Jorge, por suas palavras de introdução.

- Posso fazer qualquer coisa, senhor. Para começar, satisfar-me-ia qualquer ocupação.

O diretor tocou uma campainha.

- Tem alguma vaga para este jovem? Perguntou, segundos depois, ao chefe de uma seção do estaleiro, que se apresentou ao seu chamado.

- Sim, precisamente, necessitamos de alguém que se encarregue da limpeza do departamento das máquinas.

E o formado da universidade começou essa humilde tarefa no dia seguinte.

Depois de três meses, o gerente chamou o chefe da seção em que Jorge trabalhava.

- Como vai Jorge? Perguntou-lhe.

- Muito bem. Demonstra tal dedicação ao trabalho, que o departamento de máquinas está sempre reluzindo. Parece incrível que um advogado tenha tão boa vontade para trabalho tão humilde.

O Sr. Silveira, tal era o nome do diretor do estabelecimento, sorriu enigmaticamente e limitou-se a dizer:

- Está bem, pode retirar-se.

Outros três meses se passaram e, depois de ter pedido algumas informações quanto à conduta do jovem advogado, mandou-o chamar ao escritório.

- Nesta empresa, principiou, temos por norma experimentar por seis meses os novos empregados. Durante esse tempo, pagamos-lhes o ordenado fixo de Cr$ 300,00 mensais, importância essa que o senhor tem recebido até agora. Mas isso não é o mais importante, prosseguiu. O que nos interessa principalmente, nesse período, é a conduta, a fidelidade e dedicação ao trabalho do que se acha à prova. Ora, como a esse comportamento se unem ainda suas aptidões intelectuais, seus conhecimentos gerais e preparo universitário... Uma tossezinha interrompeu as palavras do gerente. Mudando de assunto, dir-lhe-ei que meu secretário particular foi ocupar um posto de maior responsabilidade no estrangeiro e preciso de alguém que tome esse importante lugar. Que o senhor, Dr. Jorge – e o diretor fez ressaltar o título – considerar a possibilidade de ser seu sucessor? De minha parte estou convencido de que o senhor é a pessoa mais indicada. Informo-lhe ainda que os vencimentos são de Cr$ 3.500,00 mensais.

O doutor, que momentos antes estivera a trabalhar de escova na mão, não respondeu imediatamente. Oprimia-o profunda emoção. Por fim, com uma voz que ele mesmo estranhou, respondeu:

- Agradecido, Sr. Silveira, que outra coisa poderia desejar?

Ao cabo de cinco anos, era Jorge o braço direito da empresa. E, ao passo que ocupava um cargo de muito maior responsabilidade que o de secretário particular do gerente e que seu ordenado se escrevia com várias cifras... Seu companheiro Tomaz escondera o título no fundo de um velho baú, onde guardava muitos “trastes” inúteis e, premido pela crise, lavava automóveis numa garage.

Vale a pena dizer: “Posso fazer qualquer coisa...”. E fazê-la.

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