segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Os caminhos do Senhor

. segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Ao longo de uma praia, na costa da Inglaterra, entre as cidades de Norwich e Yarmouth, perambulava um pai acompanhado de seu filhinho de quatro anos.

- Tenho fome, disse o menino.

- Cala-te, desgraçado, respondeu-lhe o pai.

- Sim, tenho fome e sinto dores, prosseguiu o menino.

- Não te calas? Maroto! Acaso me é possível arranjar-te pão aqui entre as pedras e areias da praia?

Um estremecimento correu todo o corpo do menino, que nada mais disse, porque o pai lhe havia falado num tom desabrido e rude e os seus olhos tinham um brilho estranho.

Caminharam os dois, mudos, um ao lado do outro; o menino com a cabeça pendida sobre o peito a fim de ocultar ao pai as lágrimas que estilavam os seus olhos. No coração do pai tumultuavam pensamentos tenebrosos. Esforçava-se em vão por manter o equilíbrio, pois, segundo o seu costume, estava embriagado, e vacilava a cada passo que dava.

De repente o menino prorrompeu em altos gritos; não tinha podido mais se conter; a violência que se fizera para reprimir a dor só o havia aumentado. “Pão”! Exclamou o menino, “quero um pedaço de pão!” O desnaturado pai, porém, acometido de um acesso de fúria e desespero, pegou do menino e com toda a força de seu braço o arremessou ao mar, retirando-se precipitado.

Por uma coincidência notável, a que o mundo dá o nome de acaso, como se por uma palavra vazia de sentido se pudesse explicar o que o cristão não duvida em considerar como providência divina, uma tábua sobrenadava ao lado do menino, a que o infeliz pôde agarrar-se, sendo logo movimento das ondas.

Não muito distante da praia fundeava um vaso de guerra, de cujo bordo foi avistada a criança que, agarrada ao frágil destroço, era impelida na direção do navio, em risco de ser despedaçada de encontro ao mesmo. Acaso deixar-se-á perecer a criança?

Não haverá ninguém que se disponha a salvá-la? Tais pensamentos apenas tinham tido tempo de penetrar no espírito da marinhagem, quando um marinheiro já se havia lançado ao mar, trazendo com risco de vida o menino para bordo, onde foi logo por todos interrogados.

- Chamo-me Jacob, respondeu o menino, mas, além disso, nada sabia adiantar que pudesse esclarecer a guarnição com respeito à família a que pertencia. Resolveu-se, pois, conservá-lo a bordo, onde todos lhe chamavam “o pobre Jacob”.

Como fosse de gênio pacífico e dócil e, além disso, muito serviçal, não tardou em conquistar a simpatia de todos. Era por todos considerado como um filho adotivo, constituindo para todos pontos de honra não deixar faltar-lhe coisa alguma. Depois de muitos anos de estudos, Jacob obteve colocação em um dos vasos de guerra como cirurgião da marinha real. Da maneira mais conscienciosa preencheu as funções desse cargo durante a longa guerra entre a Inglaterra e a França.

Uma ocasião, havendo o navio a que pertencia, capturado uma pequena embarcação, foram trazidos para bordo diversos feridos que se confiaram aos cuidados do cirurgião Jacob. Entre os feridos havia também um homem já idoso, cujos ferimentos pareciam fatais. Não obstante, o nosso consciencioso cirurgião lhe dedicou os mais desvelados cuidados. Todos os seus esforços, porém, foram baldados.

Sentindo o ancião que a morte se avizinhava, desejou dar ao cirurgião uma prova de sua gratidão, e solicitando-lhe alguns momentos de atenção, falou-lhe nestes termos:

- O senhor tem usado para comigo de tanta benevolência, que me sinto constrangido a entregar-lhe o único tesouro que possuo neste mundo. E, entregando-lhe uma Bíblia, acrescentou: Uma senhora crente fez-me presente deste livro que me abriu os olhos sobre a minha miserável condição e me libertou das minhas paixões criminosas. Nesta Bíblia achei o caminho da salvação, o perdão dos meus pecados por Cristo Jesus, a doce paz do meu coração, que tanto tempo viveu torturado por indizíveis remorsos, e a consolação nos dias do meu infortúnio.

Aqui o velho interrompeu-se. Um inditoso segredo parecia pesar-lhe ainda sobre a alma, mas a vergonha de confessá-lo travara-se de luta com a necessidade que tinha de desabafar o coração. Essa luta, porém, durou apenas alguns instantes. Então começou a relatar com voz pausada, mas grave, todas as desordens e impiedades de sua vida, referindo entre outras como arremessara ao mar uma criança de quatro anos, seu próprio filho, por lhe haver pedido de comer.

Ó Deus, seria isto possível? Exclamou o jovem cirurgião, cujos movimentos e estupefação cresciam à medida que o velho prosseguia a sua narração. Seria possível tornamo-nos a ver neste mundo? Diga-me, continuou ele, segurando na mão do velho, em que parte da Inglaterra sucedeu isto?

- Entre Norwich e Yarmouthm respondeu o ancião, que não compreendia porque o jovem cirurgião se achava tão comovido ao fazer-lhe tal pergunta.

- E quanto tempo há que sucedeu isto?

- Há mais ou menos vinte e três anos, respondeu o ancião.

- E não se chamava esse menino, Jacob? – interrompeu o cirurgião, que mal se podia conter.

- Jacob! Sim, era esse o seu nome! Exclamou o velho, com espanto crescente.

- Meu pai, abençoe o seu filho! – exclamou o cirurgião, atirando-se de joelhos ante o leito do moribundo. – Abençoe o seu filho! Foi Deus quem nos ajuntou de novo, quem quis pôr diante dos meus olhos o exemplo de sua conversão, e de sua pia esperança.

Longo tempo o ancião conservou-se mudo; não acreditava aos próprios olhos; pensava na possibilidade de um sonho a que havia de seguir-se amargo desengano. Pouco a pouco, porém, foi reunindo suas idéias e pediu ao jovem oficial que lhe relatasse os pormenores que ainda lhe lembravam. Finalmente estava convencido de que era de fato seu filho a quem tinha diante de si e lágrimas de alegria inundaram-lhe as faces, sobre que pairavam já as sombras da morte: e, como Simeão, exclamou: “Agora, Senhor, despedes em paz o Teu servo”.

Faleceu ainda nesse mesmo dia, nos braços de seu filho, rendendo graças a Deus.

Esta coincidência tão inesperada e tão admirável fez tal impressão sobre o jovem cirurgião, que ele logo depois resignou o seu posto na marinha, para dedicar-se à pregação da Palavra de Deus.

E sucedeu que, havendo um servo do Evangelho relatado essa história em uma reunião religiosa, ele se dirigiu ao dirigente e disse: “Eu sou aquele pobre Jacob”.

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