segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Inundação na floresta

. segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Estourando de excitação, Leandro e Davi correram atravessando o quintal em direção à trilha, ignorando as pilhas de restos de artilharia e trincheiras individuais, lembranças ruins da Segunda Guerra Mundial.

“Tchau, mãe”, disseram e acenaram pela última vez, antes de desaparecerem dentro da mata.

A mamãe confiou que Zai Kom, o zelador do acampamento da missão, iria cuidar de seus filhos, enquanto sussurrava uma oração: “Cuida deles, querido Deus”.

O pai de Leandro e Davi tinha saido em uma viagem missionária, para uma parte isolada e solitária da Birmânia. Os meninos estavam indo para encontrar-se com ele na pequena vila de Lai Twi aquela noite.

Os meninos e o zelador fizeram seu caminho ao longo de atalhos estreitos e cheios de precipícios, caminhos que pareciam uma cobra se retorcendo por entre grandes árvores e pequenos arbustos. A luz do sol, filtrada pelas árvores, fazia desenhos de luz que dançavam sobre os cabelos louros dos meninos. Em muitos lugares os meninos apontavam para árvores com delicadas orquídeas crescendo em seu tronco – algumas amarelas e violeta, entre muitas brancas como a neve.

“Estamos perto do rio”, disse Leandro, depois de algum tempo.

“Que bom. O velho Manipur não é muito fundo, podemos atravessar sem dificuldade”, disse Davi. Os três atravessaram facilmente o rio e depois pararam um pouco do outro lado para descansar, antes de começar a subida que levava a Lai Twin.

O coração de Leandro palpitava forte na subida, e ele começou a ficar para trás. “Estamos quase chegando?”, perguntou ansiosamente.

“Logo depois da próxima curva”, respondeu Zai Kom, “mais uns minutos e estaremos lá”.

“Até que enfim!” Gritou Leandro, subindo rapidamente pelo caminho e esquecendo que suas pernas estavam cansadas. Podia ouvir ruídos do vento soprando através das árvores. Agora Leandro estava bem na frente de Davi e Zai Kom. Já podia sentir o cheiro peculiar de uma vila birmanesa, e em poucos minutos chegou à vila.

Enquanto esperava que os outros chegassem, ficou observando os sinais comuns de uma vila pagã. Sempre ficava com medo quando via as ofertas que faziam aos espíritos nos postes do lado de fora das casas. Ali estava a cabeça de um cachorro, sua boca curiosamente aberta com palitos e depois enchida com comida. Como estava feliz por ser cristão, e também porque a sede da missão ficava em uma vila cristã.

Além do poste, a casa tinha o telhado feito de palha, e muitas casas tinham inkas (varanda, pórtico) com tutpas. Um tutpa é um banquinho baixo, geralmente enfeitado com pele de tigre. As casas eram construídas contra a montanha e do outro lado sustentadas por pilares. Embaixo das casas os porcos grunhiam.

“Ugh! Olhe que sacrifício horrível naquele poste”, disse Leandro torcendo seu nariz, logo que Davi chegou perto dele.

“Realmente é horrível”, Davi concordou, franzindo seu nariz, “mas venha, temos de chegar na casa dak, passaremos a noite ali. O papai deve chegar logo”.

Uma curta distância à frente, eles encontraram o “hotel” mantido pelo governo e que era conhecido por dak. Era um pouco melhor do que uma choupana, mas tinha paredes quebradas, colunas que balançavam e um inka (entrada) sujo.

Bem depressa os meninos se ocuparam fazendo fogo, e cozinhando arroz para o jantar. Leandro e Davi não deram atenção aos moradores da vila que vieram para observá-los. Mas quando as pessoas começaram a apontar, falar e rir excitadamente, os meninos sabiam que alguém estava chegando.

“Deve ser o papai”, exclamou Davi, e começou a ir para a entrada.

“É o papai! É o papai”, ele gritou enquanto corria para os braços do pai. Leandro seguiu bem de perto.

“Como estão vocês?”, perguntou o pai em voz profunda, enquanto abraçava Davi e Leandro. Depois, mais depressa que puderam passaram pelas pessoas e entraram na choupana para comer o seu jantar.

Não tiveram tempo de conversar depois do jantar, porque os moradores da vila se amontoaram ao redor, trazendo seus doentes. O pai deu medicamento, tratou e ajudou em tudo que pôde. Depois começou a falar para as pessoas sobre Jesus, que os amava.

Finalmente as pessoas voltaram para suas casas, e o papai, deitou para descansar.

Durante a noite caiu uma chuva muito forte. Choveu durante toda à noite. De manhã, a trilha tinha sido lavada e apagada em muitos lugares, e o caminho estava muito escorregadio.

O pai conversou com os carregadores sobre a situação. Com uma chuva tão forte e pesada, o Rio Manipur deveria estar transbordando. Será que deveriam seguir aquele caminho, ou deveriam tomar um caminho mais longo, que demorava mais de um dia para encontrar a ponte? Ao final, todos concordaram que deveriam descer a montanha e enfrentar o rio.

Escorregando aqui e ali, desceram a trilha até o rio. Quando alcançaram o rio, ficaram todos atolados.

“O rio cresceu mais depressa do que uma massa de pão em uma cozinha quentinha”, disse Zai Kom. A água fazia redemoinhos e muita espuma na borda.

“O rio deve estar com mais de 160 metros de largura”, observou o papai. “Vamos precisar muito da ajuda de Deus para poder atravessar o velho Manipur hoje”. E virando para Zai Kom, disse: “Corte uma vara bem comprida de bambu. Todos devemos nos segurar nesta vara para cruzar o rio, se alguém cair, poderemos ajudá-lo a levantar-se”. O papai olhou ao redor para Zai Kom, Leandro e Davi, e para os carregadores. Leandro e Davi estavam tão excitados que não tinham tempo para sentir medo.

Logo que a vara estava pronta, o papai pediu que todos curvassem a cabeça para uma oração: “Pai Nosso que estás no Céu, cuida de nós enquanto atravessamos o rio, ajuda-nos a ter pés firmes, e que possamos chegar salvos até a outra margem. Pedimos em nome de Jesus. Amém”.

Zai Kom foi o primeiro a entrar na água agitada, depois Leandro, o Papai, Davi e os carregadores seguiram, segurando na vara de bambu.

Leandro andou alguns passos e logo começou a escorregar. “As pedras estão muito lisas! Quase não posso ficar em pé!”, ele gritou.

“Segure bem firme”, acrescentou o pai, mas o barulho da correnteza impossibilitou que os outros ouvissem.

A água agitada empurrava e retorcia seus corpos. E começou a ficar mais fundo, e mais fundo – a água chegou primeiro até os joelhos, depois na cintura e até o peito. Os carregadores lutavam para manter o equilíbrio, com os pacotes sobre suas cabeças.

Leandro já estava sentindo a água em sua boca e nariz. Quando seu pé pisou em uma pedra grande, ele deu um impulso e por um momento conseguiu tirar sua cabeça e seu peito de dentro da água para respirar, mas em seguida seu corpo desapareceu na água funda novamente. Ele esticava as pernas, tentando pisar no fundo, quando uma de suas mãos escapou da vara. A turbulência do rio o sacudiu com tanta força, que conseguiu fazer com que sua outra mão se soltasse da vara de bambu, e por isto submergiu completamente e começou a ser arrastado rio abaixo. Mas seu pai que viu o que estava acontecendo, mergulhou na revoltosa água e conseguiu encontrar Leandro. O menino sentiu os fortes braços do pai puxando-o de volta. Novamente conseguiu se segurar na vara e depois sentiu as mãos de seu pai cobrindo suas mãos, enquanto segurava firme na vara de bambu. Depois desse acontecimento, que pareceu uma eternidade para Leandro, a pequena comitiva conseguiu alcançar o outro lado do rio.

Leandro olhou para o rosto de seu pai e disse: “Estou muito feliz porque os anjos cuidaram de nós, papai, e também estou feliz por você ter segurado a minha mão”. Viu quando o rosto de seu pai se transformou em sorriso. Leandro agora sabia um pouco mais sobre o amor de seu Pai Celestial e também sobre Sua proteção.

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